“O muro de Jerusalém foi derrubado, e suas portas foram destruídas pelo fogo. Quando ouvi essas coisas, sentei-me e chorei. Passei dias lamentando, jejuando e orando ao Deus dos céus”. (Neemias 1.3-4)

Ao estudarmos o livro de Neemias, vamos analisar elementos importantes que apontam para o caminho da recuperação da Igreja. Sabemos que a situação atual não é das melhores, principalmente dentro do contexto da Igreja livre de perseguição.

A liberdade abriu caminho para a libertinagem e as consequências são as piores: há poucos líderes sinceros, a Igreja está desprovida de “muros” que simbolizam a segurança e a proteção contra os ataques do inimigo.

Os portões estão queimados, ou seja, não há mais justiça acontecendo a partir das portas da Igreja para dentro, e não há muitos que lamentam, jejuam e oram ao Deus dos céus, tal qual fez Neemias e outros líderes bíblicos.

Resumindo, a lição mais preciosa que podemos extrair a partir desse contexto é que precisamos de líderes como Neemias, destemidos o suficiente para inspirar o povo de Deus a se arrepender e a arregaçar as mangas para reconstruir muros, restaurar portões e resgatar a fé.

Arqueólogos descobrem novas seções das muralhas que protegiam Jerusalém. (Foto: Captura de tela/Video CBN News)

Um líder como Neemias

Neemias era um homem que orava e agia. Seu nome vem do hebraico — Nykhemyah — e significa “aquele que consola”. Estamos falando de um judeu temente a Deus, corajoso, prático, organizado e muito talentoso.

Como oficial do governo, a serviço de um rei estrangeiro, ele ocupou o cargo de copeiro. Ser “copeiro do rei” envolvia a tarefa de provar a comida e o vinho antes do rei comer e beber, para garantir que ele não seria envenenado.

Por volta de 444 a.C, porém, Neemias compareceu visivelmente triste na presença do rei da Pérsia, Artaxerxes. Essa descrição bíblica mostra, em primeiro lugar, que Neemias era um homem sincero e sensível ao que estava acontecendo a nível nacional.

Ele ficou sabendo da terrível situação de Jerusalém: os muros estavam em ruínas, não havia mais segurança pública. Os portões estavam todos queimados, por isso não havia mais poder judiciário. E seu povo estava sofrendo miseravelmente.

Contexto bíblico

Conforme conta a Bíblia e a História, o cativeiro babilônico aconteceu no ano de 586 a.C., ocasião em que os caldeus destruíram o Templo e a cidade de Jerusalém, levando os judeus cativos durante 70 anos. Neemias nasceu durante o cativeiro.

Em 516 a.C, quando a Babilônia perdeu seu poder para o império medo-persa, os judeus puderam voltar para Jerusalém. O primeiro líder foi Zorobabel, que providenciou a reconstrução do Templo.

O segundo foi Esdras, em 457 a.C, que providenciou o ensinamento da lei de Deus ao povo. E o terceiro foi Neemias, em 444 a.C, que providenciou a reconstrução dos muros, a restauração dos portões e o resgate da fé.

Embora todos os líderes tenham igual importância para o agir de Deus, Neemias chama a nossa atenção por sua atuação mais agressiva e persistente, tornando-se para nós o modelo de liderança ideal para os momentos de crise.

Líderes são intercessores e trabalhadores

Na Bíblia, todos os exemplos de líderes, começando por Jesus, são bastante racionais e espirituais ao mesmo tempo. Um líder não é um rei que se assenta no trono e fica dando ordens, mas um servo que se levanta e se dispõe a “colocar a mão na massa”, inspirando as pessoas ao seu redor a fazer o mesmo.

Resumindo, líderes não atraem empregados, líderes atraem outros líderes. Portanto, todos aqueles que estavam com Neemias, trabalhando na reconstrução dos muros, estavam aprendendo com ele sobre a importância da liderança e o poder da humildade.

Neemias era obediente a Deus, intercedeu pelo seu povo e foi o primeiro a começar o trabalho — administrando, preparando recursos e abrindo o caminho. Em nenhum momento Neemias pensou em desistir, pois estava focado em sua missão.

Conforme o pastor e teólogo Hernandes Dias Lopes, quem se importa com alguma situação e faz perguntas, corre o risco de ser chamado por Deus para encontrar uma solução. “O conhecimento de uma necessidade torna você responsável”, disse numa de suas aulas na EBD da Igreja Presbiteriana de Pinheiros, em 2019.

Um consolador é alguém que se importa com o povo, que tem coragem de fazer perguntas e consegue sentir na própria pele os dramas dos outros. “Sabedoria, oração e ação”, disse o pastor ao lembrar que é preciso saber abordar o assunto com as pessoas certas para buscar as soluções.

Orando como Neemias

Antes de falar com o rei Artaxerxes, Neemias já orava em secreto no seu coração:

“Quando ouvi essas coisas, sentei-me e chorei. Passei dias lamentando, jejuando e orando ao Deus dos céus. Então eu disse: Senhor, Deus dos céus, Deus grande e temível, fiel à aliança e misericordioso com os que o amam e obedecem aos seus mandamentos, que os teus ouvidos estejam atentos e os teus olhos estejam abertos para ouvir a oração que o teu servo está fazendo dia e noite diante de ti em favor de teus servos, o povo de Israel”. (Neemias 1.4-6)

Depois da oração, Neemias passou a agir. Ele não precisou “forçar portas”. Perceba que Neemias foi abordado pelo rei por causa de sua visível tristeza e teve a oportunidade de falar sobre o problema com a pessoa certa, estrategicamente.

“Oração e ação. Quem ora sem agir vira um místico. Quem age sem orar vira um racionalista frio. Precisamos das duas coisas. Os homens mais práticos [citados na Bíblia] foram os que mais oraram, e os homens que mais oraram foram os que mais fizeram”, destacou ainda o pastor Hernandes.

O que significa “reconstruir muros”

A história de Neemias tem seu contexto e sabemos que os muros naquela ocasião eram físicos, representando a segurança da cidade de Jerusalém. Naquela época, a segurança dependia das muralhas e das torres com sentinelas.

Estima-se que os muros que circundavam a cidade tinham 4018 metros de comprimento, com 12 metros de altura e 8,5 metros de espessura.

Desenho representativo da cidade de Jerusalém. (Foto: Captura de tela/Video CBN News)

Em caso de ataque, o sentinela tocava a trombeta e avisava o povo, que se preparava para se defender. Mas, espiritualmente, os “muros” da Igreja são a proteção concedida por Deus através de orações, jejuns e comunhão com Cristo.

Qual a importância dos portões de uma cidade?

O Antigo Testamento cita pelo menos 27 portas em Jerusalém. Porém, com as inúmeras destruições que a cidade enfrentou, provavelmente, muitas delas não foram reconstruídas, de acordo com o arqueólogo Rodrigo Silva.

Pelos portões as pessoas entravam e saíam da cidade, de forma controlada. Como os portões haviam sido queimados, não havia mais critérios — qualquer um poderia invadir Jerusalém.

Além disso, conforme o pastor Hernandes, o sistema judiciário se instalava justamente nos portões da cidade. “Os juízes julgavam as causas do povo nas portas da cidade. Sem essas portas não havia mais um sistema jurídico legal capaz de fazer justiça”, explicou.

Em caso de roubo, assassinato, corrupção, sesquestro, entre outros crimes, o povo não tinha a quem recorrer. “O povo estava exposto à injustiça”, disse ainda.

Arqueólogos encontraram novas partes da antiga muralha de Jerusalém. (Foto: Captura de tela/Video CBN News)

Como Neemias resgatou a fé do povo de Israel

De acordo com a Bíblia, o povo de Israel estava vivendo em extrema miséria. “Sem recursos, sem ânimo, sem liderança, muitos inimigos e entraves no caminho”, especificou Hernandes.

A primeira ação de Neemias foi orar e interceder, dia e noite. “Quando você ora e intercede, você une sua fraqueza humana com a onipotência Dele; você conecta o altar da terra com o trono no céu”, disse. Neemias confessou os pecados do povo e se incluiu neles.

Diagnóstico da Igreja da atualidade

Espiritualmente, a Igreja está como a cidade de Jerusalém, nos tempos de Neemias.

Seus muros estão destruídos — não há proteção contra os ataques do inimigo. Esses muros invisíveis são construídos a partir de batalhas espirituais. Muros com brechas permitem que os pecados entrem em nossas “cidades” [igrejas], atingindo o povo. Cada oração, jejum, ato de obediência, louvor e adoração é uma pedra que levanta esse muro.

Seus portões estão queimados — não há justiça acontecendo por falta de oração e ação. Não há controle nas “portas da igreja”. Não há verificação de quem entra ou sai e nem mesmo do que se faz das portas para dentro. A igreja foi invadida e está contaminada.

Seus líderes são corruptos — é possível identificar a corrupção dentro das igrejas, bem como o resultado por todos os pecados infiltrados pelas brechas dos muros.

É tempo de reconstrução

Precisamos de mais Neemias — levantem-se líderes! Deus está em busca de intercessores sinceros e trabalhadores destemidos. “Deus pode levantar você, se tiver coragem de fazer perguntas. Se você tiver coragem de sair da sua zona de conforto”, disse o pastor Hernandes ao lembrar sobre o comportamento de Neemias.

“Dá para fazer! Quando a liderança está unida, coesa, motivada e olhando na mesma direção, todo o povo se junta para fazer acontecer”, continua o pastor ao destacar que Jerusalém ficou abandonada por 120 anos. “E Neemias realizou aquela obra de restauração em 52 dias”, resumiu.

“Deus ainda pode fazer coisas extraordinárias, se você sair da sua zona de conforto”, destacou.

Muralha de Jerusalém. (Foto: Captura de tela/Video CBN News)

Precisamos de muros firmes — é tempo de reconstruir muros e fechar brechas. A partir de um povo unido, com o mesmo foco e objetivo, é possível erguer muralhas através de intercessão, jejum, oração e ação.

Lembrando que toda pedra (pessoa) deve se posicionar sobre a pedra angular, que é Jesus Cristo. Ele é o alicerce dos muros da Igreja, sobre os quais devemos nos apoiar.

“Por isso diz o Soberano Senhor: Eis que ponho em Sião uma pedra, uma pedra já experimentada, uma preciosa pedra angular para alicerce seguro; aquele que confia, jamais será abalado”. (Isaías 28.16)

Precisamos de portões fortificados — é tempo de buscar a justiça de Deus a partir das portas da Igreja, para que não haja mais ladrões e adúlteros corrompendo as leis divinas.

“Portanto, vocês já não são estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular, no qual todo o edifício é ajustado e cresce para tornar-se um santuário santo no Senhor. Nele vocês também estão sendo juntamente edificados, para se tornarem morada de Deus por seu Espírito”. (Efésios 2.19-22)

E esse foi o estudo desta semana. Espero que tenha tirado a sua dúvida e também colaborado para o seu crescimento espiritual. Beijo no coração e até a próxima, se Deus quiser!

Leia o artigo anterior: A “espada do Espírito” é mais poderosa que as armas humanas; use-a e vença suas batalhas

Por Cris Beloni, jornalista cristã, pesquisadora e escritora. Lidera o movimento Bíblia Investigada e ajuda as pessoas no entendimento bíblico, na organização de ideias e na ativação de seus dons. Trabalha com missões transculturais, Igreja Perseguida, teorias científicas, escatologia e análise de textos bíblicos.

* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Fonte: Guiame

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